sábado, 17 de Março de 2012

A ignorância e a democracia

Penso que todos nós nascemos ignorantes, vivemos ignorantes e morremos ignorantes. As certezas que temos são sempre limitadas pela nossa humanidade e pela nossa experiência e quanto mais certezas tivermos, menos nos apercebemos da nossa ignorância essencial - o que, a meu ver, nos torna ainda mais ignorantes.

Tendo a ser céptico e a ver aquilo que eu penso como provisório, até que melhores argumentos, novos factos eventualmente me convençam de que aquilo que eu penso está errado. Penso que assumir que não se sabe é melhor do que fingir que se sabe tudo e que o cerne da sabedoria (da «wisdom», em inglês) se encontra precisamente em admitir os nossos limites.

Daí o meu desinteresse na «pureza» ou nos moralismos: geralmente, são acompanhados de proclamações de verdades absolutas e de um dogmatismo inabalável. Geralmente, os preconceitos subjacentes não são assumidos como tal e são apresentados como algo de necessariamente e objectivamente verdadeiro. Ora, todos temos preconceitos, o importante é assumi-los.

Tendo a valorizar imenso a capacidade de ver os dois lados de um argumento e de conhecer de forma aprofundada as várias posições em disputa, sem as descaracterizar. Tendo a valorizar quem chega às suas posições confrontando os argumentos das posições existentes e tentando manter-se informado sobre esses mesmos argumentos, e não apenas por procurar material que confirma aquilo que já pensa de antemão.

Valorizo finalmente quem constantemente questiona aquilo em que acredita, testando os fundamentos das suas ideias com base em nova informação e com espírito crítico em relação a si mesmo. A auto-crítica e a reflexão sobre o que nós próprios pensamos, dizemos ou fazemos deve ser tão ou mais forte como a crítica e a reflexão que fazemos sobre o que os outros pensam, dizem ou fazem.

Numa democracia, ninguém está isento de crítica. E se aprendermos a pensar de forma crítica sobre nós próprios, poderemos aplicar esse pensamento crítico em relação às ideias dos outros. 

Uma comunidade é também um conjunto partilhado de ignorâncias e, em democracia, através do debate público, o objectivo será testar as várias ideias em disputa e, através desse escrutínio, chegar às ideias que parecem mais sólidas - até serem substituídas por outras. 

É este o meu ideal democrático. Sem certezas absolutas.

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